Parques Estaduais Ilhabela e ilha Anchieta.
Antes de terminar as UCs federais do estado de São Paulo decidi conhecer algumas estaduais. Foi o caso da Laje de Santos, do Mosaico Juréia Itatins, e agora dos Parque Estaduais de Ilhabela e ilha Anchieta, muito próximos uns dos outros. Espantado com a falta de recursos humanos, e materiais, das UCs federais até agora visitadas, considerei que seria uma boa oportunidade comparar estes dois tipos: as UCs federais e as estaduais. Como se sabe as Unidades de Conservação podem ser federais, estaduais, ou municipais.
Semelhanças entre os Parques Estaduais
Os dois Parques têm características parecidas: ficam no litoral Norte de São Paulo, a pouca distância da maior cidade do País (ilhabela está a 210 km de São Paulo), e são muito frequentados por turistas. Ambos têm a Mata Atlântica como atrativo principal, além de outros ecossistemas como costões rochosos, praias, e mata de restinga. Seu interior abriga um grande número de aves, répteis, anfíbios e mamíferos. Mas há uma diferença fundamental. Ilhabela tem moradores fixos, 28 mil pelo Censo de 2010, distribuídos em nove mil domicílios. E tornou-se um dos pontos preferidos para o turismo de segunda residência de paulistas e outros brasileiros iniciando um processo de especulação imobiliária.
Ocupação da Ilha Anchieta
Desde o século XVI sabe-se que Anchieta era ocupada. Foi nesta ilha que o famoso cacique Cunhabebe estabeleceu sua tribo. A história é contada em detalhes num livro clássico: Hans Staden, duas Viagens ao Brasil, quando o aventureiro alemão foi preso pelos Tupinambás enquanto defendia o forte de Bertioga, passando nove meses entre os índios.
Em 1803 os portugueses passaram a manter um destacamento na ilha pela necessidade de defender esta parte da costa brasileira. Dois anos depois Anchieta passou a ser uma estação naval para os navios ingleses que perseguiam navios negreiros. De acordo com placas explicativas colocadas na ilha, posteriormente foi transformada em Freguesia devido “ao grande número de pessoas que moravam no local.”
Em 1902 a ilha foi transformada em Colônia Correcional, desativada em 1914. Em seguida foi ocupada por pescadores seguidos por um grupo de imigrantes russos que lá ficaram até 1928. A partir daí Anchieta tornou-se presídio político. Mais tarde, de presídio político passou a presídio de segurança máxima do Estado de São Paulo, até 1955 quando o presídio foi parcialmente destruído depois de uma terrível rebelião. Finalmente, em 1977 surgiu o Parque Estadual. Durante todo este período a vegetação foi quase toda suprimida. Este rápido histórico mostra o tanto que a flora e fauna dos pouco mais de 800 hectares de Anchieta foram afetados ao longo do tempo. E continuaram a ser logo depois de transformada em área protegida…
Ilha Anchieta e seus novos problemas
Ilha Anchieta fica “grudada” em Ubatuba cuja população atinge os 28 mil moradores, de acordo com a mesma fonte, distribuídos em 25 mil domicílios. Ubatuba, por sua beleza e proximidade com São Paulo, disputa com Ilhabela a preferência das pessoas que podem ter uma segunda residência para aproveitar o verão, os fins de semana e feriados. A cidade também sofre com o crescimento desordenado e a especulação. A economia das duas é incipiente, dependendo muito do turismo, que é sazonal; dos serviços, um pequeno comércio e, agora, da ampliação do porto de São Sebastião. A diferença fundamental entre ambas é que a ilha Anchieta não tem moradores fixos. Mas as duas sofrem problemas graves: Ilhabela há anos vem sendo descaracterizada pela especulação imobiliária, muitas vezes comandada pelos próprios prefeitos. Anchieta é afetada por outro motivo. Em 1983 a Fundação Parque Zoológico, de São Paulo, introduziu mais de cem animais exóticos, de 15 espécies diferentes. Não consegui descobrir o motivo desta ação desastrada, mas acredito que a intenção foi a melhor possível.
Entre outras espécies soltaram capivaras, saguis, tatus, quatis e cutias. Algumas não resistiram ao novo habitat outras, entretanto, se multiplicaram de forma impressionante.
Os Quatis se aproximam do rancho onde a comida é preparada. E também se proliferaram de modo exagerado.
A introdução de espécies é prática antiga
Quando fiz meu primeiro documentário sobre Anchieta, em minha estréia na da TV Cultura (2005-2007), fiquei espantado com a proliferação das espécies e as consequências causadas. O problema não é exclusivo. Grande parte das ilhas brasileiras sofre do mesmo mal desde a época da descoberta. A diferença é que naquela época ninguém sabia o que seria “ecologia”. Os portugueses, por exemplo, assim como outros navegadores, costumavam deixar porcos, cabras, bodes, galinhas e outras espécies, em todas as ilhas que descobriam. O motivo era óbvio: comida fresca nas navegações seguintes. Até o século XVIII, e princípios do século XIX, este era o padrão dos povos navegadores. Além disto sempre que desciam em alguma ilha iniciavam o desmatamento em razão da necessidade de lenha para seus fogões. Quando as ilhas tinham algum tipo de animal a caçada era feroz: sempre faltava comida nas caravelas… É por estes motivos que várias ilhas mundo afora sofrem problemas até hoje. Seus ecossistemas são frágeis. Ilhas têm solos arenosos, pouca água, vegetação normalmente escassa, etc.
Ilhas do litoral brasileiro
No litoral brasileiro isto aconteceu especialmente em Fernando de Noronha, Abrolhos, Trindade, e outras. Sempre que visitava estas ilhas, a partir dos anos 80, ficava intrigado em saber porquê os militares que ocupavam algumas delas não davam cabo destes predadores. Em Abrolhos, na ilha de Santa Bárbara, não sobrou nem grama: quase tudo foi comido pelos animais. Mesmo destino teve Trindade. Finalmente, depois de muitos anos, soube que recentemente eles foram eliminados em Trindade. Atiradores de elite da marinha deram cabo das cabras antes que comessem o que restou de verde. Se foram eliminados nestas ilhas, qual o motivo para não usar o mesmo expediente em Anchieta? Esta era minha maior dúvida.
Ao entrevistar o Chefe da Unidade, na época do primeiro programa, perguntei porque os bichos não eram retirados, ou eliminados, já que é sabido que a introdução de espécies (animais ou vegetais) é a segunda maior causa de perda de biodiversidade só perdendo para o desaparecimento de habitats naturais. Não recebi resposta convincente. O Chefe, na ocasião, desviou a resposta, enrolou e não deu uma explicação satisfatória. Ficou claro, entretanto, que não tinham um plano a este respeito apesar de concordarem com os problemas. Por este motivo, a falta de ação depois de mais de 20 anos, incluí Anchieta nesta nova série focando uma vez mais a questão. Quanto mais se fala e divulga, quanto mais as pessoas sabem dos problemas, mais rápido vem a solução. A pressão da opinião pública ainda é a chave mestra para mover o poder público.
As equipes de Ilhabela e Anchieta
Quanto às equipes, os dois Parques estaduais estão na frente das UCs federais. Suas equipes chegam a mais de 20 pessoas. Não é o ideal, reconhecem os próprios chefes. Mas também não é a pobreza das federais, muitas delas com apenas um ou dois funcionários para cuidarem de áreas às vezes enormes. E só isto já faz ter valido a pena as visitas.
Ilhabela e a especulação imobiliária
Ilhabela continua sofrendo com a especulação. A cada ano que a visito vejo mais casas e condomínios na encosta virada para o canal onde a parte do parque começa na “cota 200″ ou seja, a partir dos 200 metros de altura. Grande parte delas não têm a menor preocupação com a paisagem. Ao invés de construírem atrás de árvores, procurando manter a bela paisagem, são erguidas nas encostas de morros pelados, ou mesmo em topos de morros. E o adensamento cresce barbaramente.
O problema não se restringe ao estrago provocado na beleza do lugar. Ilhabela, assim como Ubatuba, e quase todas as cidades costeiras, conta com um pífio saneamento básico. Dos nove mil domicílios de Ilhabela apenas 660, ou 7%, contam com rede de esgoto. Ubatuba também não é exemplo apesar de vencer a primeira ao menos neste quesito: dos 25 mil domicílios, 6.700, ou 27% , contam com o benefício. Nas férias, quando a população triplica, ou quadruplica, para onde vai o esgoto? Para o mar, claro. E este é o maior problema de poluição dos oceanos: a gigantesca quantidade de esgoto derramado in natura todos os dias.
Recentemente Ilhabela esteve envolvida em polêmica. O atual prefeito, Toninho Colucci, insiste em alterar o zoneamento da cidade permitindo “atividades industriais” na face da ilha voltada ao Canal de São Sebastião já bastante degradada. Além disto, mesmo contra a vontade das comunidades tradicionais, como a do Bonete por exemplo, o prefeito quis asfaltar a estrada que leva à comunidade. Atualmente chega-se ao Bonete por mar, ou a pé, através de uma trilha. Com o asfalto as áreas do entorno seriam valorizadas e mais casas e condomínios poderiam ser erguidas o que ameaça estas comunidades que moram no local há gerações. Dizem minhas fontes que a mulher do prefeito estaria ligada a atividades da construção civil. Disseram ainda que ela alega ser dona de terrenos na praia dos Castelhanos onde existe outra comunidade tradicional. Nela vivem cerca de 150 caiçaras que sobrevivem da pesca, atividades extrativistas, mantendo viva sua cultura ao utilizar os mesmos métodos de séculos atrás.
A especulação imobiliária é impiedosa em Ilhabela. E muitas vezes estimulada e praticada pelos prefeitos.
Pescadores artesanais e as canoas de voga
Os pescadores artesanais de castelhanos ainda constroem e usam as belíssimas canoas de voga, símbolo da ilha. E convivem bem com os milhares de turistas que visitam a região quase todos os fins de semana e, especialmente, nas férias. Por falar nas canoas de voga tive uma desagradável surpresa. Na praça principal da cidade havia uma delas, com mais de cem anos, em local de destaque. Ela foi colocada debaixo de um rancho onde era homenageada já que faz parte da história da ilha. Era exibida aos turistas como uma “marca” de Ilhabela. A canoa Vencedora.
Símbolo de Ilhabela foi retirada da praça principal e escondida pelo atual prefeito Toninho Colucci.
Não consigo entender porquê ela foi escondida. Uma raridade. As embarcações típicas hoje são reconhecidas pelo IPHAN como “bem cultural dos brasileiros”.
Uma enorme canoa de voga que foi encontrada abandonada numa salga (antiga fábrica de beneficiar peixes) por este escriba e meu amigo, nascido em Ilhabela, Zé Nogueira. Na época Zé conversou com o prefeito que topou restaura-la e deixa-la em local público, como símbolo de Ilhabela. Infelizmente a Vencedora foi tirada da praça pelo atual prefeito e hoje está semi-escondida, ao lado de uma antiga construção. Isto mostra a falta de cultura e atenção da prefeitura. Hoje as embarcações típicas brasileiras são reconhecidas pelo IPHANcomo “bem cultural” dos brasileiros. Vários barcos, entre eles saveiros (Bahia), e canoas de pranchão (Rio Grande do Sul) foram tombadas pelo órgão que cuida de nosso patrimônio cultural. Além disto há um movimento em várias cidades da costa como Salvador, São Luis, ou São Francisco do Sul, por exemplo, para valoriza-las cada vez mais. Regatas de barcos típicos são organizadas litoral afora. É preciso ser muito tapado para, ao mesmo tempo em que isto acontece, o prefeito de Ilhabela, Toninho Colucci, esconder a belíssima Vencedora retirando- a da praça pública. Por falar nelas, uma das belezas do Bonete são justamente suas lindas canoas-de-voga cuja técnica de construção é centenária e, assim como o das outras embarcações típicas brasileiras, ameaçada de extinção.
Resorts em Ilhabela?
Conversando com os pescadores fiquei sabendo que a ideia do prefeito seria construir resorts ao estilo de Miami em Castelhanos. A briga é feia e antiga. O prefeito anterior também foi acusado pelo mesmo motivo: tentar alterar o zoneamento com a mesma finalidade: lucrar com a construção de novas residências, condomínios, hotéis, etc. A mulher do antigo prefeito, segundo as denúncias, também estaria envolvida com a construção civil.
O Instituto Ilhabela Sustentável divulgou uma carta aberta repudiando estas tentativas que podem acabar com o que resta da pureza ambiental da ilha. Nesta questão os gestores do Parque Estadual dão grande contribuição. Eles agem como antepara entre as tentativas do executivo, as comunidades tradicionais, e a riqueza ambiental de Ilhabela. Quando o cerco aperta, denunciam as constantes tentativas de invasão da área do Parque, ou da construção de novas estradas em seu interior. Se fosse só por isto já teriam cumprido seu dever.
Os Parques Estaduais e o turismo.
Ambos os parques recebem milhares de turistas. A quantidade era tão grande que as chefias tomaram medidas estipulando cotas máximas diárias em razão das precárias condições. Falta saneamento na ilha Anchieta, e a pequena estrada de terra que corta Ilhabela, por dentro da exuberante mata atlântica até atingir Castelhanos, é estreita, sinuosa, e perigosa. Ela também não suportaria uma carga alta demais. Por último, em Castelhanos, para onde vão os turistas também não há banheiros públicos que possam receber uma quantidade ilimitada de visitantes.
Fiquei contente com a visita. Ao menos estes dois Parques cumprem parcialmente suas funções recebendo milhares de turistas todos os anos. A velha máxima se aplica aos dois com perfeição: só valorizamos e preservamos aquilo que conhecemos. Insisto no parcialmente porque até o momento não há plano para eliminar ou retirar os animais introduzidos na ilha Anchieta. Esperar mais para quê??
Espécies introduzidas em Anchieta
Recebi do biólogo Fausto Pires de Souza, da Fundação Florestal de São Paulo, diversos estudos sobre os problemas da ilha Anchieta. Um deles, publicado pela revista Ciência Hoje em março de 2008, não deixa dúvidas. Entre outras informações a reportagem, assinada por Ariane Dias Alvarez, Ricardo Siqueira Bovendorp, Marina Fleury e Mauro Galetti, diz que o Laboratório de Biologia da Conservação da Universidade Estadual Paulista (Rio Claro), com apoio da Fundação Florestal e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, inciaram um estudo no ano 2002, portanto 20 anos depois da introdução, que detectou o seguinte: “a população de cutias cresceu mais de 145 vezes, seguida pela dos tatus- galinha (134 vezes), de sagüis-de-tufo-preto (130 vezes), de capivaras (41 vezes), e de quatis (11 vezes)”.
A matéria prossegue informando que “as espécies afetam o restabelecimento da vegetação e a estrutura das comunidades de suas presas, como aves.” Muitos dos animais introduzidos tem como alimento a vegetação onde vivem as aves, e os próprios ovos de passarinhos. E prossegue: “enquanto Ilhabela tem 118 espécies de aves, Anchieta tem apenas 72.“
As aves são importantes também para a regeneração da floresta já que se alimentam de frutos que são descartados em outros lugares. O ciclo, como se vê, é perverso. A matéria conclui que “a baixa abundância e diversidade de aves afetam diretamente a regeneração da floresta. E a ação dos mamíferos herbívoros dificultam o estabelecimento de várias espécies de plantas.” De acordo com a revista “em longo prazo esta redução poderá levar a processos irreversíveis de degradação na ilha Anchieta.”
Já passou tempo demais. Os problemas são conhecidos. Foram estudados por especialistas. Agora é preciso ação do Governo de São Paulo, através da Secretaria de Meio Ambiente, e da própria Fundação Florestal encarregada de tomar conta das unidades de conservação paulistas. É difícil e custa caro. Mas preservar o meio ambiente traz inúmeras vantagens. Veja-se a falta d’água que afeta todo o Estado. Se nossos mananciais e represas tivessem recebido a atenção merecida os paulistas não estariam correndo o risco de ficar sem o “combustível” indispensável para a vida: água.
Esperar mais por quê?
Ampliação do porto de São Sebastião
É inevitável o crescimento do porto. Com ele virão soluções para o Brasil, mas problemas para a região…
Este é outro processo irreversível. Quem conhece a costa brasileira como eu conheci sabe que, feliz, ou infelizmente, o Canal de São Sebastião é o melhor porto natural que temos. Não há o problema, comum a muitos outros, de profundidade baixa, ou falta espaço nas imediações para receber dezenas de navios. Com o pré sal e o Campo de Santos nas imediações é natural que a tendência seja aumentar a quantidade de berços para receber navios. Com isto aumentará a possibilidade de acidentes, sempre impactantes nestes casos. O novo porto estará preparado para esta possibilidade? Tenho minhas dúvidas. Além do porto, novas estradas e aquedutos estão na pauta. Estas obras trarão mais moradores, mais comércio e novas residências para atende-los. E nada indica que as necessários obras de saneamento, e ordenamento do crescimento, sigam aumentando na mesma proporção. A tendência, portanto, não é otimista. O ponto positivo serão os royalties que serão divididos entre as cidades afetadas. Resta esperar que sejam usados para minimizar os impactos e melhorar a qualidade de vida. Mas é bom que os interessados na região, de pescadores a turistas e moradores, fiquem atentos e se reúnam para fiscalizar e, eventualmente, denunciar possíveis desvios
Saudações!!!!!
Marcelo Paolini
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